11/02/2016

Geração perdida?

por Paulo Sardinha*

Se há dois anos o país vivia um cenário de emprego pleno, agora, é cada vez mais provável que a economia feche 2016 apresentando uma taxa de desocupação em dois dígitos. A última pesquisa divulgada pelo IBGE, ainda referente a 2015, aponta o desemprego em 9% e o fechamento de mais de um milhão e quinhentos mil postos de trabalho. Entretanto, os números em si são frios e nem sempre permitem que tenhamos a real dimensão de como está a situação. Basta ir a uma feira de emprego para perceber que há muitas pessoas atrás de uma vaga e uma grande parcela é formada por jovens.

Ainda em 2015, os dados do IBGE apontavam o desemprego entre quem tem 18 e 24 anos acima dos 18%, ou seja, o dobro da taxa nacional. Por enquanto, permanecemos longe do cenário de países como Espanha e Grécia, ambos enfrentam a dura realidade de ter cerca de 50% dos jovens excluídos do mercado de trabalho.

É preocupante que a falta de oportunidade atinja, principalmente, aqueles que estão em busca ou dando os primeiros passos no mercado de trabalho. Pois, para estes, os efeitos da crise econômica são ainda mais perversos. Por melhor que seja a faculdade, ela não formará inteiramente o profissional. Há habilidades e qualidades que somente são desenvolvidas no próprio ambiente de trabalho. Portanto, não é por acaso que, em momentos de crises, empresas costumem optar pelos profissionais  mais experientes. Há o entendimento de que estes já possuem uma bagagem que contribui para que saibam lidar com as situações que são esperadas quando o negócio enfrenta dificuldades.

Se o atual quadro econômico permanecer e o desemprego não recuar, o país corre o risco de ver parte de uma geração ficar estagnada. São jovens que vão ficar defasados profissionalmente pela falta de oportunidade de emprego e, quando conseguirem, verão pessoas da mesma idade em posição de gerência, enquanto ainda ocupam cargos que seriam para recém-saídos da faculdade.

É preciso que esse cenário esteja na pauta nacional. Pois, mesmo que as previsões para 2016 não sejam otimistas, a atual turbulência uma hora vai passar. Mas, como as empresas almejam crescer no futuro se houver falta de mão de obra qualificada? Antes da crise, quando em alguns setores a oferta de emprego era maior que a demanda, as empresas já lidavam com o desafio de encontrar bons profissionais. Como serão as perspectivas pós-crise?  

O poder público e a iniciativa privada precisam buscar ações e alternativas que abram oportunidades para que esses jovens entrem no mercado de trabalho. Pois, se a crise perdurar e nada for feito, o país corre o risco de ter uma geração perdida.

*Presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-RJ) - Artigo Publicado na edição do jornal O Globo de 11/02/16