03/02/2015

Liderar para fora e para dentro

por Wellington Moreira*

Profissionais do meio acadêmico e empresas de consultoria conseguiram provar durante as duas últimas décadas que para ser um bom líder é preciso dedicar tempo à equipe de trabalho. Isto é, tornar-se acessível às pessoas, escutar suas ideias com interesse e sem pré-julgamentos, atuar como um mentor que se preocupa com o desenvolvimento dos colaboradores e fazer de tudo para propiciar um clima de trabalho cada vez melhor. Ser um verdadeiro gestor de pessoas.

No entanto, é possível perceber que alguns deles não entenderam bem a recomendação, já que voltaram suas energias apenas para as tarefas que caracterizam o direcionamento da equipe de trabalho dentro das fronteiras da organização.

Esqueceram o quão necessário também é liderar para fora. Observar o mercado e as tendências que se apresentam para o futuro próximo, acompanhar o que os concorrentes estão fazendo e como o movimento deles pode afetar o alcance dos objetivos da empresa que defendem.

Um estudo realizado pelo pesquisador Xueming Luo, professor da escola de negócios americana Fox, da Universidade de Temple, na Pensilvânia, mostra que o período de permanência de um presidente na direção de uma companhia não deveria extrapolar os cinco anos. Por quê? Conforme o tempo passa, é comum que se apeguem mais ao trabalho interno e deixem o resto para lá. “Presidentes de longa data tendem a se tornar grandes líderes para a equipe, mas menos aptos a acompanhar as mudanças do mercado”, escreveu o próprio Luo num artigo publicado recentemente na Harvard Business Review.

Cuidar do time é uma atribuição central para qualquer líder que tenha o mínimo de bom-senso, mas você não pode delegar a outras pessoas a tarefa de acompanhar de perto tudo aquilo que acontece fora das fronteiras da sua empresa ou simplesmente ignorar o fato de que os concorrentes também estão se mexendo. É preciso olhar para dentro e para fora, ao mesmo tempo e na medida certa.

Infelizmente, é comum encontrarmos líderes de alto escalão que pouco interagem com o mercado, ignoram os eventos promovidos pela associação ou entidade que os representa e não se preocupam em conhecer de perto as novas boas práticas que poderiam ser aplicadas em sua empresa. Que ficam presos aos limites da sala que ocupam enquanto cumprem tarefas administrativas e vivem o micromundo que criaram para si.

Aliás, é daí que vem boa parte da arrogância e da empáfia que caracterizam muitos executivos. Quem não se permite receber um “choque de realidade” de vez em quando, começa a achar que suas tarefas triviais concluídas são a prova real de uma competência ímpar. Como é o caso de um gerente que tecia elogios a si próprio toda vez que criava uma simples planilha no Excel e depois acabava sendo alvo de piadinhas por parte da equipe nas conversas de corredor.

Quem não se arrisca a conhecer o que acontece lá fora acaba iludido acreditando que já sabe de todas as coisas. Não tem noção da distância que separa as suas ações cotidianas das melhores práticas do mercado. Acaba engolido pela vaidade dos pequenos feitos.

É claro que o tipo de personalidade também influencia. Alguns líderes têm um perfil empreendedor e comercial que faz com que apreciem toda e qualquer atividade externa relacionada com o mercado e os negócios. Por outro lado, muita gente revela um perfil administrativo que os direciona às pessoas e à rotina processual.

Líderes que equilibram o ato de liderar para dentro e para fora sabem que é recomendável dividir seu tempo de acordo com as prioridades. Quando a equipe requer apoio é necessário estar por perto quase sempre, da mesma forma que em outras épocas a imersão no mercado absorverá quase toda a sua atenção.

Agora, uma coisa é certa: o momento atual da economia exige que você dirija seu olhar além-fronteiras. Se existe hora ideal para gastar sola de sapato, conversar com seu cliente na casa dele e escutar as recomendações de quem pode ensinar-lhe alguma coisa nova, então ela já chegou.​​

*Palestrante e consultor organizacional