13/01/2015

Empresas vão em busca da sala de aula

por Redação

O Sul Fluminense é uma das regiões que mais vem atraindo investimentos no estado do Rio de Janeiro. Segundo dados da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços (Sedeis), desde 2007 mais R$ 18 bilhões entraram em municípios como Barra do Piraí, Itatiaia, Porto Real, Resende, Volta Redonda, Valença, Rio das Flores, Quatis, Barra Mansa e Piraí. São recursos oriundos de indústrias e empresas, principalmente dos setores Automotivo, Metalúrgico, Siderúrgico, Logística e Óleo e Gás, e que geraram mais de 27 mil novos postos de trabalho.

Entretanto, as empresas enfrentam o desafio da falta de mão obra qualificada na região. Como solução elas passaram a investir em parcerias com instituições de ensino e fundações, para a geração de projetos de qualificação de mão de obra. “A região Sul Fluminense vive um cenário de escassez de mão de obra. As empresas estão gerando emprego, mas é difícil encontrar no mercado profissionais com o perfil que é necessário”, observa João Barboza, gerente de Recursos Humanos da DHL, empresa especializada em soluções de logística, presente em Itatiaia há 4 anos.

Somente a MAN Latin America, presente há 18 anos na região com fábricas de caminhões e ônibus, possui oito parcerias com instituições de ensino público e privado que apoiam na capacitação dos colaboradores, além de serem fontes para recrutamento e seleção de jovens com base acadêmica. “Entendemos que a formação técnica é necessária para um bom desempenho profissional. Nesse sentido, firmamos parcerias para aproximar a teoria à prática. Além destas parcerias, trazemos para o interior da fábrica várias empresas para ministrar treinamentos técnicos”, explica o diretor de Recursos Humanos, Lineu Takayama.

Takayama cita como exemplo a parceria firmada com a Associação Educacional Dom Bosco de Resende, que, em 2005, resultou na criação do curso de graduação em Engenharia de Produção Automotivo. A iniciativa serviu para preencher a lacuna em universidades do Sul Fluminense de falta de curso de graduação no setor automotivo. A empresa contribuiu para a formatação do conteúdo programático, o que fez com que o conteúdo estivesse de acordo com o que o mercado de trabalho necessita, além de oferecer estágio prático para os melhores alunos. Mais de 60 estudantes já passaram pela fábrica de caminhões e ônibus.

Em 2008, foi a vez de estrear o curso de pós-graduação InCompany em parceria com o Centro Universitário FEI, Fundação Dom Cabral e a Fundação Getúlio Vargas. “Cento e quinze colaboradores concluíram a pós-graduação latu sensu e para nossa satisfação o aproveitamento foi superior aos cursos ministrados fora da empresa. Nossos colaboradores obtiveram as melhores notas finais e apresentaram projetos relevantes para a nossa organização”, comemora.

O diretor da Man Latin America não tem dúvidas de que as parcerias trazem retorno para a empresa, comprovando-se investimentos que se tornam diferencial competitivo. Ganho em produtividade e na qualidade dos produtos são resultados observados no dia a dia da fábrica. Mas há também aquele retorno que não pode ser quantificado, mas sentido no ambiente de trabalho, como o sentimento de valorização e reconhecimento dos colaboradores, que na avaliação do RH contribuem para gerar engajamento e tornam-se mais um fator para a retenção dos profissionais.

Aliando qualificação e responsabilidade social

No caso da DHL, empresa que compõe o maior grupo de transportes e logística do mundo, a Deutsche Post DHL, o dilema da falta de mão de obra qualificada também foi uma oportunidade para ajudar na transformação da vida de jovens carentes da região. Implementado desde 2013, o Formare oferece profissionalização para jovens de 16 a 17 anos de comunidades carentes, o que permite que eles possam projetar mais chances de um futuro no mercado de trabalho.

Resultado de uma parceria com a Fundação Iochpe que detém a expertise do programa, presente já há 6 anos na sede da DHL em São Paulo, o projeto é certificado pelo Ministério da Educação. “Na verdade, a essência do programa é formar cidadãos. Queremos dar a esses jovens de comunidades carentes a chance de ter uma perspectiva de vida que não passa necessariamente por trabalhar na DHL, já que não os obrigamos a continuar na empresa ao fim do curso”, explica Barboza.

Entretanto, mesmo não sendo o objetivo principal, a empresa soube aproveitar a primeira turma, contratando 90% dos alunos formados em 2013. Ao longo do ano, eles tiveram uma carga horário de 800 horas e permaneciam na DHL 6 horas por dia. A formação inclui aulas teóricas e práticas de tarefas típicas de logística como controle de inventário e melhoria contínua de processo. Somam-se às matérias profissionalizantes aulas sobre comunicação, relacionamento, como se comportar em ambiente de trabalho, entre outras.

Apesar de receberem bolsa, além de benefícios (plano de saúde, vale-transporte e vale-refeição), os alunos não têm vínculo empregatício com a empresa. O único compromisso deles é o de comparecer às aulas e aprender. O RH também acompanha de perto se eles estão frequentando a escola. “Quem largar os estudos perderá a bolsa”, afirma Barboza, mas já contando que ainda não tiveram nenhum caso assim. Principalmente pela aproximação que a empresa faz com as famílias, ressaltando para os responsáveis a importância do engajamento deles para o sucesso do jovem. “Queremos que haja também evolução no comportamento de cada um deles, não somente no desenvolvimento profissional”, ressalta o gerente de RH da DHL.

Para Barboza, os resultados do projeto não poderiam ser melhores. Além da efetivação de quase toda a turma dentro da equipe da empresa, viram 14 desses jovens conseguirem ingressar na faculdade. “É um projeto muito sério. No fim do ano, por exemplo, há uma auditoria. Se não formos aprovados, não recebemos a certificação do MEC. É um intenso trabalho feito para que possamos dar uma contribuição para a comunidade que nos cerca”.