02/10/2017

Caravanas de executivos vão ao Vale do Silício

por Vivian Soares, do Valor Econômico

Ao embarcar para uma viagem de 12 dias ao Vale do Silício, em fevereiro deste ano, a executiva Christiane Aché não imaginava que tomaria uma decisão radical em sua carreira. Foi, porém, exatamente o que aconteceu - alguns dias após voltar para o Brasil, ela pediu demissão do cargo de diretora de finanças estruturadas em uma grande multinacional americana e decidiu apostar em projetos fora do mundo corporativo.

"A experiência me abriu os olhos para um mundo inteiro a ser explorado além da minha carreira em multinacionais", diz Christiane, que hoje divide seu tempo entre atividades de consultoria, mentoria a coordenação de um curso de pós-MBA para mulheres conselheiras. A viagem que mudou seu propósito de carreira foi a primeira do gênero organizada pela plataforma Knowledge Exchange Sessions (KES), que promove eventos e programas corporativos customizados com foco em inovação. O grupo de Christiane tinha 32 altos executivos e uma forte presença de CEOs de empresas nacionais como Cacau Show, O Boticário e Bauducco, além de líderes de multinacionais como Microsoft e GE.

O objetivo desse tipo de programa, segundo Ricardo Al Makul, CEO da KES, é promover mudanças de cultura, inspirando gestores a atualizarem seus modelos de negócios e a engajarem seus pares e liderados com novas propostas de inovação. "Muito do que se vê no Vale do Silício são histórias de liderança e coragem. A viagem é muito enriquecedora ao desenvolver essa coragem de inovar nos participantes", diz.

O formato das excursões ao Vale do Silício surge como alternativa aos cursos tradicionais de curta duração oferecidos pelas escolas de negócios. Feito sob medida e focado no aprendizado na prática, esse tipo de programa se distancia das salas de aula e dos estudos de caso, ao levar executivos para situações reais de um mundo dos negócios cada vez mais disruptivo - uma das grandes inquietações dos líderes de grandes empresas.

De visitas a gigantes de tecnologia como o Google a pequenas startups ainda desconhecidas, palestras em um laboratório de neurociência e em uma escola de programação para jovens talentos, o repertório das missões é intenso e variado. "Eram quatro conteúdos diferentes por dia, e ao final o grupo fazia uma sessão de networking e de troca sobre o aprendizado de cada um", afirma Christiane.

Ricardo al Makul explica que, apesar de ter sido focado na alta liderança, esse tipo de viagem tende a se democratizar cada vez mais e a atingir outros níveis da organização. O próprio contato dos CEOs com o programa vem fazendo com que eles retornem ao Brasil querendo reproduzir a experiência em seu time de liderados. É o caso do Itaú Unibanco, que já realizou uma dezena de visitas de executivos ao Vale do Silício depois que o ex-presidente e atual co-presidente do conselho de administração do banco, Roberto Setúbal, fez uma viagem semelhante.

O diretor executivo de pessoas do Itaú, Sergio Fajerman, explica que as viagens começaram há pouco menos de dois anos, e equipes de TI, RH e negócios já foram ao Vale, sempre com programação adaptada às especificidades de cada departamento. "Há uma gama de oportunidades a serem exploradas. Dessas visitas surgem ideias, contratação de serviços e até oportunidades de aquisição de empresas", afirma. Os participantes são, em sua maioria, altos executivos do banco.

Fajerman ressalta que não se trata de um projeto ou programa organizado institucionalmente - as próprias equipes tomam a iniciativa de fazer os contatos com parceiros e empresas a serem visitadas e decidem a programação. A ideia, porém, é estimular outras viagens e fazer com que elas atinjam outras áreas e níveis da organização. "Estamos estudando algumas propostas de parcerias, programas mais estruturados que fazem uma mescla de visitas, cursos e networking no Vale do Silício", afirma. Um formato mais completo, segundo ele, incluiria também a sala de aula para promover um aspecto teórico entre as visitas práticas e promover a reflexão entre os participantes.

O público desse tipo de programa, no entanto, pode variar. Alguns são desenhados, inclusive, para a formação de sucessores. Este ano, a Therèse, consultoria focada em futuro do trabalho, levou ao Vale um grupo de 10 herdeiros de uma grande empresa de capital nacional. "Há um fenômeno interessante acontecendo no Brasil que é o de empresas tradicionais preocupadas com sua longevidade e tentando se reinventar por meio da inovação", afirma Isabel Armani, fundadora da Therèse.

O programa para a jovem geração de líderes foi desenhado e discutido entre a consultoria e os participantes com meses de antecedência. A proposta era apresentar um percurso de visitas e aprendizado que estivesse diretamente ligado aos interesses pessoais de cada um, que variavam entre moda, automobilismo e esportes. "Nesse caso específico, eles já não queriam visitar gigantes como Facebook ou AirBnB porque entendem que o segredo da inovação está nas empresas menores que em breve serão relevantes", explica.

Além de companhias, os jovens visitaram a escola de design da Universidade de Stanford e projetos de empreendedorismo social. "O Vale do Silício ensina o valor do propósito e do engajamento. A maior parte das empresas que estão lá querem fazer a diferença no mundo, e o empreendedorismo social traz essa visão de cadeia que se retroalimenta", diz.

O impacto social ou o propósito por trás de projetos ou empresas também foi o que influenciou a decisão de Christiane Aché de sair do mundo corporativo. Ela explica que a missão ao Vale do Silício a fez enxergar novos modelos de negócio que permitem que as pessoas vivam melhor e com mais equilíbrio. "O que mais estou adorando em minha 'nova vida' é que posso causar impacto sobre uma gama muito maior de pessoas. Descobri que existe vida inteligente fora do mundo corporativo e me deparei com muitos preconceitos que tinha ao estar mergulhada demais nesse universo", relembra.

Outro motivo que leva executivos a buscar mais esse tipo de programa é a necessidade de se inspirar em novos modelos para lidar com a crise. Jorge Muzy, presidente do Instituto Valor, que em setembro levou um grupo de 120 pessoas para o Vale, afirma que os empresários veem no programa a chance de buscar alternativas para serem bem-sucedidos em um mercado deprimido.

"Existem três públicos principais para esse tipo de missão: os altos executivos que buscam inovar para levar a empresa a um nível mais competitivo; profissionais mais técnicos que querem conhecer novidades no mercado, melhorar tecnologias e processos; e o que mais tem crescido, os empreendedores ou futuros empresários que buscam tecnologias e produtos para trazer para o Brasil", diz.

Ricardo Al Makul, CEO da KES, explica que as expectativas de muitos executivos antes da viagem são de visitar empresas mais conhecidas como Google e Twitter, mas as experiências mais marcantes no fim do programa acabam sendo de organizações e projetos desconhecidos do grande público. "O pensamento disruptivo pode vir de qualquer lugar, e esse é um dos aprendizados dessa experiência", afirma, citando uma academia onde os executivos puderam montar seus próprios robôs.

A ideia era mostrar um modelo de negócios que dá ao consumidor a capacidade de produção. Ele explica que, após as visitas, os participantes são convidados a fazer uma sessão de 'download', em que todos se reúnem para discutir o aprendizado de cada experiência e o que podem aplicar em suas próprias empresas. "É preciso dar continuidade ao debate, senão o executivo volta ao cotidiano de trabalho e fica angustiado sem saber como aplicar tanta informação", diz.

Em breve, conta Al Makul, a experiência do Vale do Silício deve ser ampliada também para outras regiões do mundo conhecidas pela inovação. Em outubro, a KES organiza uma viagem em grupo para um polo de inovação em Israel. Além de sediar centros de pesquisa de empresas como Apple e Facebook, a região desponta como uma fonte de projetos e startups em áreas variadas como segurança da informação e veículos autônomos.